Oportunidades de aprendizagem em casa durante a pandemia

Mariane Koslinski (UFRJ)

Tiago Bartholo (UFRJ)

Estudos com foco na educação infantil têm observado que na primeira infância, a família, como contexto mais imediato das crianças, exerce influência significativa sobre o que elas aprendem. É dentro de casa que o bebê tem suas primeiras experiências de socialização e aprendizagem, que são ampliadas e potencializadas pelas interações com os adultos e outras crianças. Nesta direção, estudos recentes passaram a mapear rotinas e atividades realizadas pelos responsáveis com as crianças em casa. As informações obtidas podem gerar um indicador chamado de home learning environment (HLE) ou “ambiente de aprendizagem em casa” (AAC). Esse conceito reflete as oportunidades de aprendizagem que adultos propiciam para as crianças no contexto familiar, medidas, geralmente, através do engajamento ativo em brincadeiras e atividades de aprendizagem com as crianças. Alguns exemplos são: leitura de livros, contação de histórias, brincadeira com números, pintura e desenho, ensino de músicas/poemas/rimas etc. Estudos nacionais e internacionais acompanharam o desenvolvimento de crianças ao longo da educação infantil e identificaram algumas características das escolas e famílias que impulsionam a aprendizagem em linguagem, matemática e no desenvolvimento socioemocional. Um desses fatores são as brincadeiras e atividades desenvolvidas pelos responsáveis com as crianças. Aqui é relevante mencionar que a frequência com que as atividades são realizadas é importante quando pensamos no desenvolvimento das crianças (BARTHOLO et al., 2020, TAGGART et al., 2011; SYLVA et al, 2010).

A pandemia e a consequente diminuição de oportunidades de aprendizagem oferecidas pelas escolas, em especial para crianças mais vulneráveis, é um dado preocupante. Frequentar à pré-escola está associado com trajetórias educacionais mais longas e deve ser visto como um fator de proteção para crianças vivendo em situação de vulnerabilidade. Em outras palavras, a oferta de qualidade na educação infantil é capaz de diminuir desigualdades educacionais (DAMIANI et al., 2011, CAMPOS et al., 2011; KOSLINSKI; BARTHOLO, 2020; SYLVA, et al., 2010). No momento em que as medidas de distanciamento social limitam as interações com os professores e as oportunidades de aprendizagem oferecidas pelo atendimento da educação infantil (CAMPOS; VIEIRA, 2021; FCC et al., 2020), o ambiente da aprendizagem em casa torna-se ainda mais crucial para o desenvolvimento das crianças.

Na pesquisa “O impacto da pandemia do COVID-19 no desenvolvimento das crianças durante os dois primeiros anos na escola” (LaPOpE/ UFRJ com apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal), investigamos o ambiente de aprendizagem em casa durante a pandemia a partir das brincadeiras e atividades realizadas pelas famílias com as crianças, de acordo com o relato dos responsáveis. Os gráficos 1 e 2 apresentam os resultados para uma amostra representativa de crianças matriculadas na etapa da pré-escola de uma rede pública de um município de médio porte localizado na região Nordeste do país.

Gráfico 1: Ambiente de aprendizagem em casa durante a pandemia (pré-escola – amostra escolas públicas)

Fonte: LaPOpE UFRJ, 2021.

Observamos que uma grande proporção dos pais (mais de 60%) relatou que frequentemente ou sempre desenvolvem atividades como desenhar, pintar, recortar e brincar com letras ou ensinar o alfabeto. Logo em seguida, observamos que o desenvolvimento frequente de atividades como contar, brincar com números e brincar com cores e/ou formas é relatado por mais da metade dos respondentes. Já as atividades como ler ou folhear livros e cantar, recitar poemas e rimas, são menos frequentemente relatadas pelos responsáveis. É interessante notar que as categorias nunca ou raramente são pouco frequentes, o que sugere que muitas famílias oferecem oportunidades variadas de aprendizagem em casa para as crianças.      

Além disso, observamos uma variação das atividades desenvolvidas de acordo com o perfil socioeconômico das famílias. Os pesquisadores elaboraram um indicador de nível socioeconômico (NSE) para as famílias a partir de respostas dos responsáveis para perguntas relacionadas a posse de bens, escolaridade dos pais e participação no programa Bolsa Família. O gráfico 2 abaixo apresenta o percentual de famílias que relatou realizar as atividades frequentemente e sempre, para os responsáveis no quartil inferior e superior do NSE.  

Gráfico 2: Percentual de famílias que desenvolvem atividades sempre ou frequentemente, de acordo com nível socioeconômico (amostra escolas públicas|)

Fonte: LaPOpE UFRJ, 2021.

Observamos que um menor percentual de famílias de NSE mais baixo relatam desenvolver sempre ou frequentemente os seis tipos de atividades que compõem a medida de ambiente de aprendizagem em casa. As diferenças entre o percentual de responsáveis que realizam atividades mais associadas à escola, como brincar com letras e ensinar o alfabeto e contar e brincar com números são mais acentuadas.

Os dados descritivos sugerem que famílias com nível socioeconômico mais alto realizam com maior frequência diferentes atividades e brincadeiras que estão associadas com o aprendizado das crianças. Os resultados encontrados reforçam a necessidade das escolas e gestores públicos pensarem em estratégias adicionais para comunicarem às famílias a importância da realização diária de brincadeira, jogos, atividade física, leitura de livros e contação de histórias. Além disso, as escolas podem ser facilitadoras ao apoiarem os pais no planejamento da rotinas das crianças, na adoção de jogos e brincadeiras como uma forma de interação que diverte, ajuda na construção de vínculos e impulsiona o desenvolvimento das crianças.

Referências

BARTHOLO, T. L. et al. What do children know upon entry to preschool in Rio de Janeiro. Ensaio: aval. pol. públ. educ., v.28, n. 107, p. 292-313, 2020. Disponível em: 1807-0175-ln-110-215.pdf (scielo.br)

CAMPOS, M. M. et al. A contribuição da educação infantil de qualidade e seus impactos no início do ensino fundamental. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 37, n.1, p. 15-33, 2011b. Disponível em: EPv37_book_v2.indb (scielo.br)

CAMPOS, M. M.; VIERA, L. F. COVID-19 and early childhood in Brazil: impacts on children’s well-being, education and care. European Early Childhood Education Research Journal, Jan, 2021, p. 1-16. Dyspneal em: COVID-19 and early childhood in Brazil: impacts on children’s well-being, education and care (tandfonline.com)

DAMIANI, M. F. et al. Educação infantil e longevidade escolar: dados de um estudo longitudinal.  Estudos de Avaliação Educacional, São Paulo, v. 22, n. 50, p. 515-532, 2011. Disponível em: _EAE_50.indd (fcc.org.br)

FCC (Fundação Carlos Chagas), Fundação Lemann, Fundação Roberto Marinho, Instituto Península, Itaú Social. 2020. Retratos da educação no contexto da pandemia do coronavírus. Perspectivas em diálogo. São Paulo, FCC/F. Lemann/F. R. Marinho/I. Península/Itaú Social, August. Disponível em: Pesquisa-Retratos-da-educacao-no-contexto-da-pandemia-de-coronavirus.pdf (movinovacaonaeducacao.org.br)

KOSLINSKI, M. C.; BARTHOLO, T. B. Desigualdades de oportunidades educacionais no início da trajetória escolar no contexto brasileiro. Lua Nova, n. 110, p.215-245, 2020. Disponível em: 1807-0175-ln-110-215.pdf (scielo.br)

SYLVA, K. et al. Early Childhood Matters: evidence from the effective preschool and primary education project. Abingdon, Routledge, 2010.

TAGGART, B. et al. O poder da pré-escola: evidências de um estudo longitudinal na Inglaterra. Cadernos de Pesquisa, v. 41, n. 142, p. 68-99, 2011. Disponível em; v41n142a05.pdf (scielo.br)

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