Quais os impactos da pandemia e da interrupção das atividades presenciais nas escolas no bem-estar e no desenvolvimento das crianças na educação infantil?

Tiago Bartholo – Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação UFRJ/ Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais

Mariane Koslinski – Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação UFRJ/ Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais

A pandemia e o fechamento das escolas, com a interrupção das atividades presenciais, criaram enormes desafios para as escolas, os professores e as famílias. A rotina das crianças foi profundamente alterada e muitas ficaram um ano letivo sem a oportunidade de interagir presencialmente com os amigos da escola, os professores e, em alguns casos, com os avós e outros familiares. É importante considerar também que as condições das famílias para adotarem as medidas de isolamento social varia enormemente e é plausível imaginar que famílias mais vulneráveis estejam enfrentando condições mais desafiadoras e isso pode impactar o bem-estar, a nutrição, o desenvolvimento e as desigualdades educacionais.

Ainda sabemos pouco sobre os impactos da pandemia do Covid-19 no desenvolvimento das crianças pequenas. No entanto, ao longo do segundo semestre de 2020 e nos primeiros meses de 2021, foram publicadas revisões sistemáticas e estudos com dados secundários em diversos países que buscam responder duas questões fundamentais: a) qual é o efeito do fechamento das escolas no aprendizado e nas desigualdades educacionais?; b) qual é o impacto do ensino remoto no aprendizado? (EEF, 2020a; 2020b; Halterbeck, et al., 2020; Engzell et al., 2020; Maldonado; De Witt, 2020). Em linhas gerais, os resultados dos estudos sugerem que o cenário atual, com uma interrupção prolongada das atividades presenciais nas escolas, irá aprofundar as desigualdades educacionais. Por exemplo, na Inglaterra, a revisão sistemática produzida pela Education Endowment Foundation (EEF) sugere uma reversão do cenário observado na última década, com um aumento das diferenças considerando o grupo de crianças vulneráveis e não vulneráveis. Outro estudo realizado na Holanda, analisou dados secundários de diferentes coortes de alunos antes de depois da pandemia, o que permitiu um desenho de estudo robusto para estimar os efeitos do fechamento das escolas (Engzell et al., 2020). No total, 350.000 alunos foram incluídos na análise e os resultados sugerem que os efeitos do ensino remoto na aprendizagem dos alunos do ensino fundamental foram muito pequenos (desprezíveis do ponto de vista pedagógico). Na Bélgica, Mandonado e De Witt (2020) destacam um aumento das desigualdades educacionais no país diante do fechamento das escolas. Isso significa que o impacto do fechamento das escolas é mais severo para os alunos em situação de vulnerabilidade.

Halterbeck et al., (2020) em relatório para a Sutton Trust Foundation estimaram o impacto do fechamento das escolas no aprendizado e na renda futura dos estudantes. Os resultados mais uma vez sugerem que meninos e meninas em situação de vulnerabilidade serão mais fortemente afetados pelo fechamento das escolas. O impacto no aprendizado será maior para esse grupo com consequências para aumento do abandono escolar e menor chance de mobilidade social.

Os estudos supracitados analisaram dados de alunos no ensino fundamental. No entanto, é razoável presumir que os efeitos observados em alunos entre 6 e 14 anos sejam semelhantes para crianças na educação infantil. Por exemplo, estudos recentes observaram efeitos da pandemia e medidas de distanciamento social sobre a rotina, bem-estar e desenvolvimento socioemocional, a partir do relato dos pais, em crianças de 2 a 4 anos no Reino Unido e de até 6 anos na América Latina (Pascal et al, 2020; Guerrero, 2021).  O estudo realizado no Reino Unido também observou que a maioria dos pais buscou diversos tipos de apoio durante o lockdown para desenvolver atividades com seus filhos (ex: programas de TV educativos ou aplicativos de celular focados em parentalidade). No entanto, somente 28% relataram ter recebido apoio dos estabelecimentos de atendimento à educação infantil online e este percentual foi mais elevado entre os pais de classe média se comparados com responsáveis da classe trabalhadora.

Outro estudo, realizado nos Estados Unidos, observou o impacto nas oportunidades de aprendizagem para crianças que frequentam a pré-escola, em especial de famílias de baixa renda (Barnett; Jung, 2020). De um lado, as crianças mais vulneráveis tiveram menos acesso às atividades remotas e presenciais oferecidas pelas escolas e, de outro, a opção remota não permitiu o desenvolvimento de atividades com experiências concretas, característica importante na aprendizagem das crianças nessa faixa etária. O relatório do estudo, realizado com dados de um survey de abrangência nacional com 945 domicílios, com crianças de 3 a 5 anos, indicou que, antes da pandemia, 61% das crianças dessa faixa etária participavam de programas de educação infantil. Com a pandemia, a participação foi reduzida: 30% estavam participando de programas online e 8% no formato presencial. As desigualdades no atendimento persistiram durante a pandemia, com menor participação de crianças com pais de menor escolaridade tanto para o atendimento no formato remoto como para o presencial.

Devemos ainda considerar que os dados apresentados são, em sua maioria, de países europeus e dos Estados Unidos, contextos com menores níveis de pobreza e desigualdade social, quando comparados ao Brasil. As dificuldades observadas nesses países para implementar o ensino remoto e os desafios para a reabertura são possivelmente menores do que o observado em nosso país. Além disso, o Brasil enfrentou um dos períodos mais longos de fechamento das escolas: todas as escolas fecharam em meados de 2020, e a reabertura gradual foi muito desigual considerando diferentes cidades e tipo de oferta (rede pública e privada). Segundo estimativas do Jornal Folha de São Paulo, apenas 3% dos alunos de 4 a 17 anos estavam frequentando presencialmente escolas no final de 2020 (FOLHA DE SÃO PAULO, 2020).

No Brasil, Campos e Vieira (2021) realizaram um levantamento de relatórios e pesquisas em andamento sobre os efeitos da pandemia na educação no contexto brasileiro. As autoras indicam que os estudos com foco na Educação Infantil são mais escassos. Ainda assim, sinalizam algumas tendências que nos ajudam a compreender o acesso às oportunidades de aprendizagem de crianças em diferentes contextos durante a pandemia. Por exemplo, o relatório de pesquisa do survey realizado pela Fundação Carlos Chagas indica que 60% dos professores da educação infantil relataram esforços para oferecer orientações a famílias para estímulos e acompanhamento das atividades em casa. Os professores das redes públicas relataram principalmente o uso de Whatsapp, seguidas do uso de redes sociais, enquanto os professores das redes privadas relataram com maior frequência o uso de ambientes virtuais de aprendizagem, seguido do Whatsapp (FCC et al., 2020).

As escolhas das estratégias de comunicação refletem a infraestrutura das escolas e capacidade dos professores para ofertar o ensino remoto, assim como, o acesso das famílias de diferentes contextos socioeconômicos a recursos que possibilitam o ensino remoto. No que diz respeito à conectividade, enquanto somente 31% dos alunos de escolas públicas tinham acesso a computador/tabletes e internet banda larga, este percentual era de 77% entre os estudantes da rede privada. Além disso, de acordo com um survey realizado em maio-junho de 2020 com as secretarias de educação, 25% dos municípios das regiões Norte e Nordeste relataram que não tinham adotado nenhuma estratégia para alcançar os alunos durante o fechamento das escolas, enquanto nas regiões Sul e Sudeste, todas relataram desenvolver algum tipo de alternativa (Campos; Vieira, 2021).

A diminuição de oportunidades de aprendizagem oferecidas pelas escolas, em especial para crianças mais vulneráveis, é um dado preocupante, em especial frente às evidências já produzidas por estudos que indicam que a frequência à pré-escola, além de contribuir para o desenvolvimento das crianças em diversas dimensões e estar associado a trajetórias educacionais mais longas, é um fator protetor especialmente para crianças de origem socioeconômica mais baixa. Estes efeitos mais duradouros são observados, em especial, para a frequência em escolas de qualidade, medidas a partir de instrumentos de avaliação da qualidade dos ambientes da educação infantil e/ou das interações entre professor-crianças (Damiani et al., 2011, Campos et al., 2011; Peisner-Feinberg, et al, 2000; Sylva, et al., 2010; Sammons, 2008, Tymms, et al, 2009, Nichd, 2006; Howes et al., 2008). No momento em que as medidas de distanciamento social limitam as interações com os professores e as oportunidades de aprendizagem oferecidas pelo atendimento da educação infantil, o ambiente da aprendizagem em casa torna-se ainda mais crucial para o desenvolvimento das crianças. Assim, podemos esperar que a desigualdade de acesso ao apoio oferecido pelas escolas durante a pandemia, relatado por diversos estudos, tenha implicações para a ampliação das desigualdades educacionais já existentes antes da pandemia.

Referências:

Barnett, S. W.; Jung, K. The Pandemic and Preschool Education in Five Charts, NEPC  newsletter, September, 2020.

CAMPOS, M. M.; VIERA, L. F. COVID-19 and early childhood in Brazil: impacts on children’s well-being, education and care. European Early Childhood Education Research Journal, Jan, 2021, p. 1-16.

Education Endowment Foundation (2020) Impact of school closures on the attainment gap: Rapid Evidence Assessment, London: Education Endowment Foundation.

Education Endowment Foundation (2020) Remote Learning, Rapid Evidence Assessment, London: Education Endowment Foundation.

Engzell, P.*a,b,c, Arun Freyd , and Mark Verhagena,b. Learning inequality during the COVID-19 pandemic. SOC ARXIV. https://osf.io/preprints/socarxiv/ve4z7/

FOLHA DE SÃO PAULO (2020, December 11). Só 3% dos alunos de 4 a 17 anos do país voltaram a ter aulas presenciais neste ano. São Paulo.

FCC (Fundação Carlos Chagas), Fundação Lemann, Fundação Roberto Marinho, Instituto Península, Itaú Social. 2020. Retratos da educação no contexto da pandemia do coronavírus. Perspectivas em diálogo. São Paulo, FCC/F. Lemann/F. R. Marinho/I. Península/Itaú Social, August. Disponível em: Pesquisa-Retratos-da-educacao-no-contexto-da-pandemia-de-coronavirus.pdf (movinovacaonaeducacao.org.br).  Acesso em  Fev. 1, 2021.

GUERRERO, G. Midiendo el Impacto de la Covid-19 em los Niños y Niñas menores de seis años en América Latina. Programa de Educación del Diálogo Interamericano y la Oficina Regional para América Latina y el Caribe de UNICEF, Diálogos Intermaericanos, Washington, DC, 2021. Disponível em: Midiendo-el-impacto-de-la-Covid-19-en-los-ninos-y-ninas-menores-de-seis-anos-en-America-Latina-2.pdf (thedialogue.org)

Maldonado, J. A.; De Witt, K (2020). The effect of school closures on standardises test. Ku Leuven, Discussion Paper.

Maike Halterbeck, Gavan Conlon, Pietro Patrignani and Andrew Pritchard (2020). Lost Learning, Lost Earning. London: The Sutton Trust Foundation.

Nic Pensiero, Tony Kelly, Christian Bokhove. Learning inequalities during the Covid-19 pandemic: how families cope with home-schooling

Pascal, C. et al. COVID-19 and Social Mobility Impact Brief #4: Early Years. The Sutton Trust. Research Brief, July, 2020.

PEISNER-FEINBERG, Ellen et al. The Relation of Preschool Child-Care Quality to Children´s Cognitive and Social Developmental Trajectories through Second Grade. Child Development, v. 72, n. 5, p. 1534-1553, set/out 2001.

PENSIERO, N., KELLY, A.; BOKHOVE, C. (2020). Learning inequalities during the Covid-19 pandemic: how families cope with home-schooling. University of Southampton research report. https://doi.org/10.5258/SOTON/P0025

SAMMONS, P.; SYLVA, K.; MELHUISH, E.; SIRAJ-BLATCHFORD, I.; TAGGART, B. E HUNT, S. Effective Pre-school and Primary Education 3-11 Project (EPPE 3-11). Influences of Children´s Attainment and progress in Key Stage 2: Cogntive Outcomes in Year 6, 2008.

SYLVA, K. ET AL. Early Childhood Matters: evidence from the effective pre-school and primary education project. Abingdon, Routledge, 2010.

TYMMS, P., MERRELL, C., HENDERSON, B. (1997) The first year at school: a quantitative investigation of the attainment and progress of pupils. Educational Research and Evaluation3(2), 101-118.

Marcações:

3 comentários em “Quais os impactos da pandemia e da interrupção das atividades presenciais nas escolas no bem-estar e no desenvolvimento das crianças na educação infantil?”

  1. Maria Clara da Silva Costa

    Essa pesquisa é de extrema importância para o atual contexto em que vivenciamos, nos impacta e nos alerta para que possamos melhorar a nossa atuação pedagógica nas escolas. Realmente ela irá despertar novas políticas públicas, novos projetos para currículo, novas ações e atitudes significativas de nós enquanto educadores, da família e de toda a sociedade em geral.
    Parabéns a todos os colaboradores.

  2. Essa pesquisa é de suma importância para todos nós enquanto professores para que possam acrescentar em nosso conhecimento e assim levar a outros diante dessa situação a qual nos encontramos atualmente. Nós somos papel importantíssimo para educação de nosso pais e podemos contribuir para que possa melhor, assim ajudamos famílias, crianças vencer este desafio.

  3. O ensino híbrido tem suas peculiaridades, mas ao meu ver, o ensino presencial é insubstituível, até porque existe a aproximação aluno/professor e ensino/aprendizagem que são caminhos relevantes ao aprimoramento e qualificação do ensino.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *