Saúde mental dos professores durante a pandemia

Tiago Bartholo – Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação UFRJ/ Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais

Mariane Koslinski – Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação UFRJ/ Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais

Os profissionais da educação tiveram que se reinventar durante o período de interrupção das atividades presenciais nas escolas. Jornadas mais longas e dificuldade de acesso às famílias e crianças marcaram esse período. Como a saúde mental dos professores deve ser considerada nesse cenário? E com a reabertura das unidades escolares?

A pandemia do Covid-19 pode ser considerada um evento traumático com efeitos de curto e longo prazo na vida das populações. Catástrofes e eventos traumáticos estão associados a maior prevalência de transtornos mentais, tais como depressão, estresse pós-traumático e ansiedade. A equipe de pesquisadores do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais (LaPOpE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, está coletando dados sobre a saúde mental dos diretores e professores que atuam na educação infantil em escolas da rede pública, privada e conveniada em duas cidades no Brasil. Para mais detalhes sobre a pesquisa e seus objetivos clique aqui.

Os professores têm papel fundamental no acolhimento e no desenvolvimento das crianças, seja no período de realização das atividades remotas ou no momento do retorno das atividades presenciais nas escolas. É importante que todos os profissionais que atuam nas escolas, em especial os professores, tenham o apoio necessário das políticas públicas para poderem realizar o seu trabalho. Priorizar a educação é garantir a segurança dos profissionais que atuam nas escolas mesmo em um contexto desafiador como o atual. Isso demanda protocolos claros para a reabertura, acesso à serviços de apoio a saúde mental dos profissionais e calendário com prioridade para a vacinação dos profissionais que atuam nas escolas. O ano letivo de 2021 com novas interrupções e descontinuidade do trabalho pedagógico será muito prejudicial para as crianças com enormes impactos para o seu aprendizado e desenvolvimento.

Os dados coletados durante os meses de setembro e dezembro de 2020, com mais de 90% dos professores que atuam em pré-escolas da rede pública em uma cidade de médio porte na região nordeste do Brasil, sugerem níveis preocupantes de transtorno de ansiedade (GAD-7) e risco de episódio depressivo (PHQ-9).

Gráfico 1: Prevalência de casos críticos (GAD-7 e PHQ-9) no estudo LaPOpE/UFRJ 2020 e em estudos representativos para a população Brasileira

Fonte: Elaboração própria, com dados da pesquisa LaPOpE/UFRJ (2020), Silva et al. (2017) e Munhoz et al. (2016).

Os dados coletados não permitem estabelecer uma relação de causalidade entre o evento da pandemia e um aumento da prevalência de casos moderados e severos entre os respondentes. No entanto, os números reforçam a importância de os gestores públicos pensarem programas de suporte psicológico para os profissionais da educação. Alguns estudos indicam que a saúde mental dos professores está associada às condições de trabalho a que estão submetidos (Tostes et al. 2018; Gontijo, Silva, Inocente, 2013). No entanto, poucos estudos brasileiros que focalizam a saúde mental dos professores utilizam os instrumentos PHQ-9 e GAD-7 e/ou uma amostra representativa dos professores para uma rede e/ou localidade (Costa; Silva, 2019; Scaladora et al., 2015; Silva; Bolsoni-Silva; Loureiro, 2018). Desta forma, encontramos limitações para traçar parâmetros que nos permitam interpretar os resultados encontrados na presente pesquisa.

Os dados coletados pela pesquisa LaPOpE/UFRJ (Koslinski; Bartholo, 2020) mostram ainda uma relação entre o impacto da pandemia do Covid-19 no indivíduo e os indicadores de saúde mental. Por exemplo, o estudo observou maior prevalência de casos moderados e severos para transtorno de ansiedade e depressão entre professores e diretores que relataram os seguintes episódios durante a pandemia: perda de trabalho e/ou renda, diagnóstico positivo para Covid-19, hospitalização, falecimento na família decorrentes da Covid-19 ou ainda pertencer ao grupo de risco. Esses são aspectos importantes que devem ser monitorados pelos gestores no momento de planejamento de reabertura das escolas.

Referencias:

COSTA, R. Q. F.; SILVA, N. P. Níveis de ansiedade e depressão entre professores do ensino Infantil e fundamental. Pró-posições, v. 30, 2019, p. 1-29.

GONTIJO, E. E. L.; SILVA, M. G.; INOCENTE, N. J. Depressão na Docência – Revisão de Literatura. Vita et Sanitas, n. 7, 2013, p. 87-98.

Koslinski, M., Bartholo, T. L. Relatório 1 (Parcial) O impacto da pandemia do COVID-19 no desenvolvimento das crianças durante os dois primeiros anos na escola. Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, 2020.

MUNHOZ, T. N., NUNES, B. P., WEHRMEISTER, F. C., SANTOS, I. S., & MATIJASEVICH, A.  A nationwide population-based study of depression in Brazil. Journal of Affective Disorders, n. 192, 2016, p.226–233. https://doi.org/10.1016/j.jad.2015.12.038

SCALADORA, T. B. ET AL. Avaliação dos níveis de estresse e depressão em professores da rede pública do município de Francisco Beltrão – PR. Arquivos de Ciências da Saúde da UNIPAR, v. 19, n.1, 2015, p. 31-38.

SILVA, M et al. Prevalence and correlates of depressive symptoms among adults living in the Amazon, Brazil: A population-based study. J Affect Disord, n. 222, nov. 2017, p.162-168.

SILVA, N. R.; BOLSONI-SILVA; A. T.; LOUREIRO, S. R. Burnout e depressão em professores do ensino fundamental: um estudo correlacional. Revista Brasileira de Educação, v. 23, 2018, p. 1-18.

TOSTES, M. V. et al. (2018) Sofrimento mental de professores do ensino público. Saúde debate, v. 42, n. 116, jan-mar. 2018.

1 comentário em “Saúde mental dos professores durante a pandemia”

  1. Glaucia Pasqualini

    A questão que me pergunto é como apoiar e incentivar esses mesmo professores que sofreram traumas, voltarem a dar aulas, e se sentirem confortáveis e seguros. Percebo que esses professores não estão preparados ainda para voltarem as suas atividades. E me pergunto o que fazer nesse caso como profissional da área da saude.

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