Sobre a pesquisa

Nos últimos três anos (2017-2018-2019), pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) analisaram o desenvolvimento infantil nos dois primeiros anos da escolarização obrigatória no Brasil – crianças com idades entre 4 e 6 anos que frequentam a pré-escola. O estudo foi realizado com três amostras diferentes em duas cidades (em escolas públicas e privadas) e coletou dados longitudinais para cerca de 4800 crianças matriculadas em um total de 126 escolas. Os dados coletados permitem identificar fatores associados ao desenvolvimento das crianças no ponto de partida, ingresso na pré-escola, e no aprendizado das crianças.

O estudo analisou padrões de desigualdades de oportunidades educacionais nos primeiros anos de escolarização obrigatória – fatores escolares e extraescolares. Informações coletadas junto aos responsáveis das crianças permitiram compreender melhor o papel das famílias e as rotinas estabelecidas dentro de casa que auxiliam no desenvolvimento infantil. Por outro lado, dados sobre as condições de infraestrutura, materiais pedagógicos, práticas de gestão e interações entre o professor e a criança dentro de sala auxiliam a identificar fatores escolares e programas para a primeira infância associados ao desenvolvimento das crianças.

No início de 2020, o Brasil, juntamente com muitos outros países, fechou todas as escolas na tentativa de desacelerar o crescimento da pandemia do COVID-19 no país. Crianças e adolescentes pararam de frequentar as escolas desde meados de março – as datas variam de acordo com o Estado da Federação ou etapa de ensino. No presente momento (junho de 2020), não está claro quando as escolas serão reabertas, no entanto, espera-se que as aulas presenciais reiniciem em algum momento no segundo semestre de 2020 ou primeiro semestre de 2021, mesmo que com adaptações para diminuir a densidade de alunos nas salas de aula e escolas. Por exemplo, outros países que já têm planos mais concretos de retorno ou que efetivamente estão reabrindo as escolas, têm realizado o rodízio de alunos ao longo das semanas, ou optado pelo retorno de apenas algumas séries/grupos etários.

A pandemia e o fechamento das escolas criaram enormes desafios para as escolas, os professores e as famílias, além da preocupação sanitária. As crianças não têm a oportunidade de interagir presencialmente com seus colegas e professores, e é razoável supor que os mais vulneráveis possam enfrentar mais privações como déficit nutricional uma vez que deixaram de ter acesso às refeições na escola. Além disso, o distanciamento social, juntamente com o confinamento em casa, pode adicionar uma grande quantidade de estresse e ansiedade aos adultos e crianças. É relevante mencionar também que diferentes escolas e sistemas públicos de ensino têm adotado estratégias distintas para tentar minimizar os impactos do fechamento de escolas. Diversas ferramentas que permitem a interação online estão sendo testadas e utilizadas, como por exemplo, sites com propostas de atividades, reuniões online que permitem que professores e crianças interajam e ainda reuniões online entre a escola e as famílias. No entanto, é preciso destacar que nem todas as escolas, professores e famílias têm acesso a internet de banda larga e aparelhos como tablets ou computadores em suas casas. A falta de materiais e infraestrutura que viabilizem a interação virtual pode acentuar as desigualdades educacionais.

O presente projeto de pesquisa tem como objetivo continuar o acompanhamento longitudinal das crianças que participaram do estudo “Fatores associados ao desenvolvimento das crianças na pré-escola”, coordenado pelos professores da UFRJ, que coletou dados em escolas da rede privada e conveniada ao longo de 2019. Os principais objetivos do estudo são: 1) Estimar o impacto da interrupção das atividades presenciais nas escolas e medidas de isolamento social no bem-estar (saúde mental, nutrição e rotina) e no desenvolvimento cognitivo e motor das crianças; 2) Compreender as estratégias adotadas pelas escolas e redes de ensino para apoiar as crianças e famílias durante o período de interrupção das atividades presenciais; 3) Compreender como famílias, professores e diretores foram afetados pela pandemia; 4) Descrever desafios das redes de ensino e das escolas para o retorno das atividades presenciais.

O estudo pretende realizar devolutivas pedagógicas para as escolas e redes participantes. O Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais (LaPOpE), desde a sua fundação (2012), busca gerar e divulgar informações que sejam relevantes para a formulação e avaliação de políticas educacionais. As informações coletadas a partir do presente projeto têm como objetivo final ajudar a tomada de decisões baseadas em evidência no atual contexto de pandemia.

© Copyright 2020 Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaPOpE/UFRJ)

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